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quinta-feira, junho 30

Que viva a Grécia!

Baptista-Bastos

A Grécia parece ter peçonha. Nas reuniões internacionais, Papandreou é objecto de todas as recuadas atenções e de todos os silenciosos desfavores. Os países "periféricos", nos quais se inclui Portugal, nada querem a ter com a Grécia, uma desgraça que dá azar. A simples menção do nome do país faz estremecer de horror os dirigentes da Europa "pobre." A Grécia é-lhes desprezível. Temem o "contágio", e afirmam, com fogosidade, nada ter a ver com "aquilo". Se a Europa económica e política está a desfazer-se, a Europa moral (o que quer que a expressão signifique) só não cai em estilhaços - porque não existe.
Entre dentes ou, até mesmo, com clareza impudica, políticos de países "menores" não querem paralelismos comparativos com os gregos. Os gregos são a desonra da Europa. Basta observar como o primeiro-ministro daquele país é olhado (de viés) e tratado (como um subalterno) para se entender o carácter separatista e discricionário da União. A Europa germanicamente "imperial", tão bravamente desejada e imposta por Angela Merkel, faz o seu caminho, com exclusões e inclusões das mais absurdas. A fragilidade desta pseudoconstrução, na qual se pretendia criar uma nova identidade política e económica, com base num igualitarismo de poderes e de decisões, é uma evidência - e um colossal embuste.
A Grécia, por todos os motivos que a definem e nos definem, é uma instituição cultural e uma entidade política e estética que não deve ser submetida a estas desconsiderações, enraizadas num capitalismo tão predador quanto ignorante. Diz quem não sabe: a Alemanha e os países mais ricos não podem pagar pelos erros e desmandos dos dirigentes gregos. É verdade. Porém, as causas das coisas não são tão simples. E a aplicação, à Grécia, de juros superiores a mais 20% pode sugerir--nos que há teias insidiosas, cuja invisibilidade não é assim tão obscura. A quem e a que países interessa o desmantelamento do projecto europeu, e à acentuação de uma complexidade que nos inculca um desequilíbrio insustentável?
A ideia segundo a qual a Grécia criará um efeito de dominó imparável tem adeptos poderosos. E, nos meios de comunicação, há jornalistas e comentadores estipendiados para defender essas bandeiras. As quais são as bandeiras dos poderes ocultos que ambicionam o domínio sobre os Estados e a subversão da própria democracia.
A desobediência civil, manifestada em múltiplas e diversas acções dos gregos, poderá não ser, ainda, uma sintaxe revolucionária. Poderá. No entanto, um pouco por toda a parte, as pessoas começam a fartar-se das iniquidades e violências de um sistema que encaminha as nações para o caos. Preservar a liberdade num mundo cada vez mais cercado e caracterizado pela barbárie é um imperativo moral e uma imposição de consciência.

sexta-feira, junho 24

Imbróglio no Parlamento. E agora, Pedro?

Baptista Bastos



O dr. Fernando Nobre submeteu-se, e foi submetido, a uma humilhação sem nome.
Os deputados não o admitiram como Presidente da Assembleia; Passos Coelho insistiu, com uma obstinação pelo menos surpreendente; e o próprio Fernando Nobre aceitou uma segunda volta vexatória. Não sei quem saiu vencedor desta peleja tão absurda quanto vergonhosa. Passos deveria ter recuado; Nobre não deveria ter aceitado; e o PSD não seguiu as ordens do seu presidente. Por outro lado, a "coligação" quebrou a sua aparente harmonia. O facto de Nobre ter sido escorraçado era previsível e, até, extremamente ponderável. Este estranho braço-de-ferro ainda lança opróbrio maior ao fundador da AMI. 

Não gosto de escrever estas palavras. Simpatizo pessoalmente com Fernando Nobre, embora as suas escolhas me tivessem espantado e deixado um pouco indignado, pelo alto estofo ético que atribuía ao nomeado. Almocei com ele uma vez, a seu convite, e associei o combate em que militava com muitos dos combates da minha geração. Motivo mais do que suficiente para o apreciar e estimar. O humanismo sorridente e o ar bondoso do seu olhar cativaram-me. Escrevi umas frases simpáticas. Mantenho-as. Embora não encontre, ainda hoje, resposta para as dúvidas e perplexidades que me assaltaram, quando da sua adesão formal ao PSD. 

Porquê? O programa do PSD contraria tudo o que o dr. Nobre tem defendido. Ainda me recordo da sua indignação veemente, quando, num programa de Mário Crespo, se insurgiu contra o sistema de saúde nos Estados Unidos. Um documentário fora exibido sobre um grupo de médicos americanos que, sem nada em troca, se haviam juntado para auxiliar quem deles precisasse. E um homem testemunhava o seu drama: percorrera mais de 400 quilómetros para ser assistido por um desses médicos, porque não tinha dinheiro para tratar de um dente, que o atormentava com dores. 

"É isto que eu não quero para o meu país!" exclamou Fernando Nobre, quase colérico. A indignação de Nobre era a minha indignação, e mais se acentuou a consideração e estima que por ele eu nutria. "Isto" é o que Pedro Passos Coelho se propõe impor e, por decorrência, o amolgamento ou a subversão total do Serviço Nacional de Saúde. E não me venham com paliativos retóricos. Nobre era, pois, um guerreiro da mesma tribo e um homem cujas palavras estavam em conexão com as suas admiráveis acções. 

Não sei o que se passou na cabeça deste homem. A verdade é que, se ganhou alguns afectos momentâneos, perdeu muitos milhares de amizades, nascidas da mesma origem que faz a solidariedade das pessoas. Não estou a fazer julgamento moral de um homem cujo passado sem mácula é um indicativo de coerência e de desprendimento. Apenas lamento. E lamento ainda mais porque muitos daqueles que seria previsível apoiarem-no, o rejeitaram por duas vergonhosas vezes. 

Que vai fazer, agora, Fernando Nobre, uma vez que se malogrou o desejo de ser Presidente da Assembleia da República? E aquele que o irá substituir com que justificação aceitará o cargo, no fundo, de terceira escolha? Assisti às palmadinhas nas costas e aos beijinhos caridosos que Nobre recebeu, após o conhecimento dos resultados do segundo escrutínio. Todos estes gestos possuíam o cunho da hipocrisia deslavada, e Nobre, encolhido na sua cadeira no Parlamento, era um homem colhido entre a surpresa e o pejo. 

Por outro lado, esta primeira derrota de Pedro Passos Coelho terá, necessariamente, repercussões. A obstinação do presidente do PSD enfrentou a obstinação declarada de Paulo Portas. As coisas, creio, não ficarão na mesma. Que se seguirá?

quinta-feira, junho 23

As incógnitas que nos esperam

Baptista Bastos


Pedro Passos Coelho não enganou ninguém. Ao longo dos meses foi dizendo ao que vinha. E até publicou um livro, no qual revelava o essencial do que queria para o País. A lógica na qual repousa o seu projecto assenta na ideia de que a sociedade portuguesa e o mundo só conseguirão sobreviver se o Estado for reduzido, ou mesmo removido, e os "privados", o "mercado", a "competição" tomarem o seu lugar. É um empreendimento demolidor. Não substitui o paradigma sob o qual temos vivido: liquida-o; e a alternativa é uma incógnita, pois nem sequer no-lo é proposta. Esta ausência de programa e a profusão de declarações produzidas, algumas insensatas, outras decisivamente tolas, não impediram os portugueses de votar no PSD de Passos Coelho.
Procura-se as razões que os levaram a proceder assim. Estavam exaustos com Sócrates, eis uma explicação. Seja como for, o PS foi escorraçado do poder; e um novo "ciclo", parece que redutor de incertezas, surge com uma outra moral e outra filosofia. Um novo plano de regras irá surgir. Pedro Passos Coelho, peremptório, ambiciona ir mais longe do que as exigências da tróica. Mas Passos sempre falou de mais, para, a seguir, se desdizer e remendar o que disse, ou fazer com que Miguel Relvas vá corrigir o soneto.
As coisas não vão ser um mar de rosas para o Governo. E a "coligação" não é tão sólida quanto os sorrisos aparentam. A não-aceitação de Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República constitui uma humilhação para o médico e uma derrota política e pessoal para Passos Coelho. Ficou claro que os diferendos que opõem PSD ao CDS repousam num modelo de decisões e de poder que não corresponde à amabilidade dos abraços. Os atritos emergirão. Tanto mais que a obstinação de Passos é gémea da obstinação de Portas. O inevitável medir de forças, tão ao gosto do presidente do CDS, vai esclarecer-nos sobre o equilíbrio que se tenta estabelecer entre as diferentes componentes desta "associação" de opostos.
A composição do Governo é, aliás, engraçadíssima. O número foi abreviado. Não se sabe bem para quê: há ministros sobrecarregados de pastas, cujas funções não possuem relação entre si. A barafunda não corresponde a nenhuma situação particular e vai exigir um dispêndio de energias e um conjunto de decisões acrescidas cujo sentido nos parece absurdo e abstruso.
Aceite o que se verifica e regista, expostas as fissuras existentes num corpo desejadamente coeso, esquecidos os sorrisos e os abraços, logo-assim a poalha pirotécnica desapareça, as coisas retomarão a sua densidade e os problemas as suas exactas dimensões. Os representantes da tróica tocam- -nos no batente de três em três meses, no varejo que acautela o dinheiro dos empréstimos. Que ninguém conte com a solidariedade europeia. É uma fraude e uma farsa.