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terça-feira, junho 28

E se em 2013 nos faltar o crédito?

Camilo Lourenço
Portugal tem uma extraordinária dificuldade em pôr-se de acordo para resolver os seus problemas.

Veja-se, por exemplo, as declarações de António José Seguro, discordando da ideia de o País ir mais longe do que o acordado com a troika. 

É verdade que é preciso dar algum desconto ao que Seguro, e Assis, dizem: ambos disputam a liderança do PS. Mas nenhum deles pode repetir os erros do anterior Governo, que afundou o País "correndo atrás do prejuízo": Sócrates dizia que estava tudo bem, que não era preciso apertar o cinto, para depois convocar o País, de urgência, a desdizer o que tinha dito. Foi assim com o OE 2010, com o aperto de Maio, com o aperto de Setembro, com o OE 2011 e com o último PEC (o 4º!)... Em cada orçamento, em cada "pacote" o padrão era o mesmo: o Governo respondia sempre com atraso aos acontecimentos. E, ainda pior, falhava na execução. É altura de mudar, passando a "antecipar o prejuízo". Por causa da Grécia, por causa execução da orçamental do 1º trimestre (pior do que o Governo cessante disse) e porque tudo joga contra nós: alguém acredita que a taxa de juro de 14%, a 5 anos, resulta apenas do contágio da Grécia? Não será também desconfiança quanto à capacidade de pormos a casa em ordem em dois anos? Seguro tem de perceber que a desconfiança chegou a tal ponto que já não nos basta apresentar um défice de 5,6% em 2011. Temos de surpreender. E isso implica ser muito mais ousado do que prometemos ao FMI/BCE/UE: no tempo e na profundidade das medidas. Porque se daqui a dois anos os mercados continuarem a não nos emprestar dinheiro, estaremos iguais à Grécia. E depois?

Económica, executiva e… tolices!

Camilo Lourenço
O 1º ministro decidiu ir a Bruxelas em classe económica e o assunto acabou nos jornais. O debate que se seguiu assentou na necessidade de o Estado cortar despesa. Um dia depois ficou a saber-se que, afinal, os governantes não pagam quando viajam na TAP. Daí às críticas à demagogia, sobretudo nas redes sociais, foi um passo. 



Em que ficamos? O mais importante, neste episódio, é saber se os governantes pagam bilhete na TAP (que até fica com mais lugares em executiva para vender, numa linha com muita procura)? Não. É constatar que o país, não apenas o Estado, vive acima das posses. E quando assim é, a missão de um governante responsável é contribuir para que empresas e famílias percebam isso. Dando o exemplo: quantos de nós não criticamos os nossos chefes, rosnando que quem dá maus exemplos não tem moral para pedir sacrifícios? Quando um governante decide ser frugal, seja no que for, isso tem pouco impacte nos 50% que o Estado gasta do PIB. São literalmente "peanuts". O que interessa são os sinais que passa à sociedade. E o sinal aqui (esperemos que venham mais) é dizer ao país que tem de ajustar em baixa o seu nível de despesa: esquecendo a casa dos sonhos, o carro preferido, as férias nas Caraíbas, recorrendo menos ao crédito, vivendo com menos luxos. Um banqueiro disse-me um dia que o seu banco contratara "xis" horas de voo a uma empresa de jactos executivos. Como o banco raramente esgotava essas horas, a empresa sugeriu que utilizasse o avião para ir de férias. "Nunca o fiz. Mesmo sabendo que não custava mais à empresa", confessou". "Porquê?", perguntei. "Como é que depois tinha moral para cortar postos de trabalho"? Voilá!

Um país dominado por corporações

Camilo Lourenço
A última semana e meia foi um belíssimo retrato da sociedade portuguesa. Primeiro a divulgação, pelo Observatório da Saúde, de um relatório que referencia atrasos escandalosos na marcação de consultas (o relatório tinha erros mas o retrato não deve estar longe da realidade...).

Pois não passou um dia sem o “establishment” rebater, qual virgem ofendida, o estudo (com ameaças de processos em tribunal). 

Dias depois a Inspecção-Geral de Finanças (IGF) detectou casos de potencial fraude em 40% das despesas com a comparticipação de medicamentos. No mesmo dia lá apareceram as inevitáveis “condenações”. Esquecendo-se que o documento fornece dados inquietantes: receitas passadas em nome de médicos falecidos, médicos com milhares de receitas passadas por ano, etc.A semana não terminou sem mais um exemplo do desperdício de dinheiros do contribuinte: uma auditoria da IGF ao Ministério da Justiça detectou 165 mil euros em pagamentos a magistrados... já falecidos. O mesmo documento diz que o Ministério não dispõe de “informação actualizada sobre os trabalhadores a quem processa remunerações e suplementos e sobre a sua assiduidade”.É este o Portugal moderno. Um país com muita coisa errada... mas onde as corporações não deixam mexer em nada. Só há uma forma de mudar isto: estar disposto a perder as próximas eleições. Porque a “limpeza” vai mexer com tantos lobbies que estes não hesitarão em por o país a ferro e fogo para não perderem privilégios.P.S – A directora do CEJ demitiu-se depois de “correr” a nota 10 aspirantes a magistrados que copiaram num teste. Mas o problema mantém-se: como é que quem prevaricou vai um dia julgar alguém?

quinta-feira, junho 23

Pedro e o CDS: "um olho no burro e outro no cigano"

Camilo Lourenço


Não sei com que espírito Passos Coelho encarou as negociações com Paulo Portas para a formação do Governo.
Mas se em algum momento pensou que podia confiar (vá lá, a 90%) nele, já deve ter mudado de ideias. 

Portas tem um objectivo: fazer do CDS uma alternativa ao PSD, para chegar um dia a 1º ministro (como, numa escorregadela, deixou escapar na campanha eleitoral). E bate-se obstinadamente por ele. Mas tem um problema: o mau resultado das legislativas, consequência do voto útil no PSD (a "maldição" do CDS, que no passado complicou a vida a Freitas do Amaral e Lucas Pires…), que lhe retirou espaço para reivindicar pastas com que sonhava, como Economia e Administração Interna. Daí a necessidade de afirmação. Como se viu quando não apoiouFernando Nobre (má escolha de Coelho). No final, Portas diria mesmo que a sua preocupação primeira é… o seu eleitorado. Numa evidente marcação de terreno. Este mini-desentendimento pode vir a ter mais importância do que parece: confirma que os dois partidos não estão casados por amor, mas por interesses conjunturalmente coincidentes (veja-se as declarações que o "Público" colheu de deputados do PSD, no final da votação…). Razão suficiente para Passos Coelho estar atento às jogadas de Portas. Desde logo à "marcação" que vai fazer a Miguel Macedo na Administração Interna, uma pasta madrasta. Resta saber se as energias gastas neste braço-de-ferro permanente não vão afectar a qualidade da governação.P.S. - E se algum dos ministros "não entregar"? Se for do PSD, será fácil substituí-lo. Mas se for do CDS? Vai Passos mantê-lo, para não hostilizar o parceiro?

Certezas, promessas, incógnitas e erros de casting (cont.)

Camilo Lourenço


De ontem ficaram por analisar um erro de casting, as incógnitas e as promessas.
1 - Erros de casting - Miguel Relvas não devia ter subido ao Governo: faz falta para "sossegar" o PSD (as eleições autárquicas são já em 2013…), não tem o melhor perfil para as relações parlamentares e a escolha ameaça minar a separação entre o governo do partido e o Governo do País… 

2 - Promessas - Miguel Macedo. Tem experiência política, mas aAdministração Interna não é o seu forte; ainda para mais com cortes orçamentais (e sob o olhar de Portas…). Aguiar Branco - não está no seu meio, mas o bom senso e capacidade para gerir equilíbrios são trunfos na relação com os militares. Nuno Crato - conhece bem o sector, não alinha em facilitismos (exames nacionais em cada ciclo) e propõe formas sensatas de avaliação dos professores. Tem capacidade de diálogo, mas os lóbis deixá-lo-ão trabalhar? Assunção Cristas - é inteligente e tem boa capacidade de trabalho/aprendizagem. Mas tutelar três pastas, sem experiência executiva, é um risco. 3 - Incógnitas Santos Pereira e Mota Soares. O primeiro é um académico, "estrangeirado", numa pasta que aconselharia um gestor. E com peso (no partido e fora dele). O segundo terá dificuldade em mostrar, devido aos cortes nas prestações sociais, se as preocupações sociais do CDS ("à esquerda do PSD") são para valer. O Governo tem pernas para andar? Tem. Não pelo corte geracional (a comparação com Cavaco não serve - não havia troika e Cavaco contava com pesos-pesados do PSD, como Eurico de Melo…). Passos Coelho vai ter de se aplicar. Começando por ajudar os seus ministros a escolherem bons secretários de Estado.

terça-feira, junho 21

Certezas, promessas, incógnitas e erros de casting

Camilo Lourenço



Sempre que alguém forma governo, a novela repete-se: quem recusou, quem foi segunda escolha, quem isto, quem aquilo…
Isso é importante? Não (até porque alguns não aceitam porque sabem que entre fazer análise e implementar vai grande distância…). O que interessa é saber se quem aceitou não o fez para dizer um dia "fui ministro", mas porque quer ajudar o país. E saber se consegue "entregar". 

As escolhas de Passos Coelho encerram duas certezas, cinco promessas, duas incógnitas e dois erros de casting. 

Certezas: Paulo Portas e Paulo Macedo. Portas, com o seu "drive", pode ir mais longe do que o seu (brilhante) antecessor. Nomeadamente na diplomacia económica. 

Macedo é aquilo que a Saúde precisa: um gestor. A sua passagem pelos Impostos mostrou ser possível reformar um dos "cancros" da Administração (Coelho devia ter-lhe entregue, também, este sector). Macedo sabe "baixar o ruído" e é eficaz. A Saúde vai ficar irreconhecível. 

Erros de casting: Miguel Relvas e Paula Teixeira da Cruz. Primeiro Paula: é competente mas a Justiça precisa de um gestor, não de um jurista. Tal como a Saúde não precisava de um médico… 

Promessas: Vitor Gaspar (Miguel Macedo, Aguiar Branco e Cristas ficam para amanhã, assim como as incógnitas Santos Pereira, Mota Soares e Miguel Relvas). Primeiro Gaspar. Tecnicamente brilhante (desarma os adversários com um sorriso), é um "diplomata" e conhece as Finanças. Mais: mexe-se bem e é respeitado em Bruxelas e Frankfurt. Mas não tem peso político, dentro e fora do PSD. E isso pode fazer a diferença, no momento de impor austeridade.

Aliás, as Finanças são a área onde o Governo mais precisava de veterania...