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terça-feira, julho 5

Há sempre tempo e dinheiro

Jorge Fiel
(...)
Da mesma maneira, emagrecer o nosso Estado obeso não significa deixar de investir, o que nos atiraria para a situação ridicularizada na história do cavalo do espanhol estúpido - que ao abrir o estábulo e deparar com o animal feito cadáver desabafou: "Logo agora que se tinha habituado a não comer é que ele foi morrer...!".
Vêm estas ideias gerais (e estou em crer que consensuais) a propósito do que deve o novo Governo fazer pelo nosso país durante os nove trimestres consecutivos de recessão em que vamos ter de sobreviver, de acordo com as previsões do ministro das Finanças, que tem o ar e a fama de ser homem de boas contas.
Tempos excepcionais exigem políticos e políticas excepcionais. E ninguém duvidará de que 27 meses seguidos a destruir riqueza são um tempo de excepção, em que os governantes não se podem esconder atrás do biombo das desculpas da falta de tempo ou de dinheiro.
Há sempre tempo e há sempre dinheiro, por muito escassos que eles sejam - e infelizmente são-no.
A grande questão reside em escolher criteriosamente onde investir esses recursos escassos. E o investimento em transportes públicos movidos a energias limpas e não poluentes tem de estar na primeira linhas das prioridades.
E para emagrecer duravelmente um Estado como o português não basta reduzir o peso a eito, sem cuidar de reparar se estamos derreter cirurgicamente a gordura ou a ler boas noticias na balança conseguidos artificialmente à custa da perda de músculo.
Para curar o nosso Estado da obesidade mórbida de que padece, a administração pública tem de adoptar um estilo de vida mais saudável, dotando-se de elevados graus de flexibilidade e eficiência que só poderão atingidos aproximando a decisão dos cidadãos. Lisboa e o centralismo são a barriga que nos tolhe os movimentos e impedem Portugal de sair do buraco em que o meteram.

segunda-feira, junho 27

O caso da doutora Dra

Jorge Fiel
O caso da doutora Dra é um das mais saborosas histórias do último fôlego da presença portuguesa em Macau.

Foi assim. Como de costume, mal desembarcavam no território, os quadros vindos de Lisboa recebiam logo um dossier, competentemente preparado pelo BNU, contendo a papelada para preencherem com os dados pessoais com vista à abertura da conta onda cairiam as patacas e à emissão do conveniente cartão de crédito.
Sucede que a trintona, que mais tarde seria conhecida por doutora Dra, receosa que o banco ignorasse a sua licenciatura em Direito, feita em Coimbra, fez questão de anteceder de um Dra o nome com que fora baptizada.
A jurista (que nem que me torturem revelarei que seria mais tarde ministra de Guterres) fez mal em desconfiar da eficiência dos serviços do BNU e pagou por isso. Doutora Dra Maria... foi o nome gravado no cartão de crédito e que passou a figurar no endereço da correspondência bancária que lhe era enviada para casa. E a comunidade local passou a referir-se-lhe como a doutora Dra (com o a acentuado).
Na generalidade, nós, os portugueses, pelamo-nos por ostentar títulos (sejam académicos ou nobiliárquicos) e sinais exteriores de riqueza.
Nestes particulares, tenho muito orgulho em que estes pecadilhos não constem do meu extenso rol de defeitos.
Apesar de contar com uma licenciatura no meu curriculum, jamais deixei que um dr. antecedesse o meu nome nos cartões de crédito e sempre desencorajei, logo à partida, qualquer tratamento por doutor.
E não andarei longe da verdade se vos confessar que a principal razão para nunca ter sido multado por excesso de velocidade reside no facto de jamais ter tido um carro com potência suficiente para ultrapassar esse limite.
Vem este episódio da doutora Dra e os dois exemplos da minha modéstia (que, admito, talvez seja uma sofisticada manifestação de vaidade) a propósito de ter captado uma série de sinais positivos emitidos pelo novo Governo.
Por três vezes Passos Coelho subiu uma data de pontos na minha consideração. A primeira quando soube que abdicara voluntariamente da reforma vitalícia a que tinha direito como deputado. A segunda quando decidiu continuar a viver em Massamá. A terceira quando escolheu voar em Económica até Bruxelas - não interessa se o Governo paga ou não a viagem. O que importa é o exemplo.
Também apreciei muito que no sábado, na sua primeira aparição pública, o ministro da Economia tivesse pedido que o tratassem por Álvaro, em vez do tratamento tradicional e bajulatório de "senhor ministro".
A admiração e o respeito não se conquistam com títulos académicos, vistosos carros pretos ou poltronas de 1.ª classe. Antes pelo contrário.

domingo, junho 26

Um buraco chamado Lisboa

Jorge Fiel

Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.
Olhado de cima e visto em perspectiva, Portugal é como um bilhar snooker que descai sempre para um buraco chamado Lisboa, que absorve, bulímico, os recursos humanos e materiais do resto do país.
O problema não é novo. Quem leu a "Queda de um anjo", de Camilo, sabe que este maléfico magnetismo já era poderoso mesmo num século como o XIX onde o Porto liberal, invicto e vitorioso da Guerra Civil, viveu um dos períodos de maior esplendor da sua história.
Ao nacionalizar os grupos económicos que viviam à sombra da protecção do Estado Novo, o 25 de Abril abriu o espaço para a emergência, a Norte, de uma nova geração de empresários, de que Belmiro de Azevedo e Américo Amorim são as cabeças de proa, que mudaram a face do país.
O poder económico deslocou--se para Norte, onde uma impressionante multidão de PME produtoras de bens transaccionáveis salvaram, com as suas exportações, o país da bancarrota.
Os empresários do Norte não ficaram à espera das privatizações e aventuraram-se a criar os primeiros bancos privados (BPI e BCP) após a revolução, numa altura em que os velhos capitalistas ainda mantinham bens e famílias na Suíça e no Brasil.
Cavaco pôs um ponto final a esta fase de desenvolvimento harmonioso e liberal da economia do país ao usar o programa de privatizações para fazer renascer os grupos engordados à mesa do salazarismo. Nenhum analista político e económico honesto deixará de identificar a década cavaquista como o período em que os portugueses, anestesiados pela chuva torrencial de dinheiro vindo de Bruxelas, consentiram na construção de um estado ultracentralista e fecharam os olhos ao nascimento de dois monstros (o do défice e o da Função Pública).
Fernando Gomes foi o líder que capitalizou a nível político o poder económico da região, que já se deslocava para o buraco negro lisboeta. A proclamação pela UNESCO do Centro Histórico do Porto como Património da Humanidade, o metro do Porto, o Parque da Cidade, o Porto Capital Europeia da Cultura, a Casa da Música são as marcas deste período áureo da metrópole que, com o seu porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro, é a cabeça natural da mais empreendedora região do nosso país.
Apesar de ser o líder respeitado de uma região e de estar informado das desventuras na capital do fidalgo minhoto Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (o herói da novela camiliana), Fernando Gomes não resistiu ao cântico das sereias lisboetas e na primeira oportunidade trocou a vista da Avenida dos Aliados pela do Terreiro do Paço, com o resultado conhecido (o suicídio político).
A contínua migração para Lisboa de líderes e massa cinzenta tem de deixar de ser uma fatalidade.
Para ressurgir, a Região Norte precisa de políticos que olhem para o Porto, Aveiro, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Bragança, Viseu, Guarda e Vila Real como pontos de chegada - e não como pontos de partida.

terça-feira, junho 21

Um rio que une as margens

Jorge Fiel



Nas desarrumações e arrumações que sublinharam a minha última mudança de casa (espero que seja também a derradeira, tantas as canseiras que me deu), tropecei na roupa que trouxe da tropa.
Tive imensa pena que o dólman do camuflado e as calças da farda de trabalho (muito na moda, pela cor, tecido e bolsos laterais) já não me servissem, mas não há que ter ilusões. Em trinta anos, muitas coisas se passaram não só no país e no Mundo, mas também no meu corpo.
Vem este episódio a propósito da triste teimosia dos estados- -maiores dos partidos do arco governamental em manterem o país espartilhado em roupas que já não lhe servem. A actual divisão do país em distritos, câmaras e freguesias foi feita à medida de um Portugal que no entretanto mudou completamente de figura.
É pena, porque creio que não é preciso ser um Einstein para perceber que o desenho administrativo feito numa altura em que a lista telefónica de Lisboa tinha uma dúzia de páginas não é o mais adequado para gerir eficazmente um país com 12 milhões de telemóveis, em que metade dos seus habitantes já não se lembra de que houve um tempo em que os telefones estavam presos à parede por um fio.
Mais tarde ou mais cedo (rezemos para que seja mais cedo), as circunstâncias e a troika vão acabar com o disparatado desperdício de energias e recursos que é estar no século XXI a tentar enfiar-nos num fato político-administrativo feito por medida num mundo longínquo, onde não havia auto-estradas, televisão, aviões ou Internet.
A actual estruturação autárquica do Porto fez sentido quando as famílias ricas da cidade iam passar os meses de Verão a casas alugadas na Foz, fazendo-se acompanhar de mobília, baixela e criadagem - e em que o rio Douro era um real obstáculo à circulação dos portuenses.
A profunda reforma político-administrativa do país deverá ser uma das prioridades do Governo que hoje toma posse e a principal arma que Pedro Passos Coelho tem para combater a obesidade mórbida de um Estado que está a asfixiar o país.
No intervalo entre as duas etapas do Grande Prémio Histórico do Porto 2011, Luís Filipe Menezes iniciou oficiosamente a campanha eleitoral que o levará a presidir a Câmara do Porto em 2013.
As cinco novas travessias do Douro que ontem apresentou são propostas sérias para ajudar a voltar a fazer prosperar uma metrópole nascida e unida em volta da foz de um rio que alguns políticos pouco clarividentes teimam em olhar como um obstáculo.