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sábado, junho 18

O novo governo e os cínicos entendidos de sempre

Manuel Tavares


A concentração de pastas e políticas aconteceu como era previsível e todos podemos intuir que o processo teria ido ainda mais longe, não fosse para tal necessário mexer em leis orgânicas. Mas pelo que já pudemos ouvir ontem de doutos tele-especialistas em ciências políticas, se mais houvera mais dúvidas filosóficas e metódicas teriam povoado a noite dos comentários sobre quem poderia ser quem em vez do ministro real.
A dúvida que mais se ouviu foi a da falta de experiência política de ministros como o das Finanças, Vítor Gaspar, que não consegue apaziguar as almas dos comentadores de sempre, apesar do seu currículo técnico e respaldo institucional tão forte como podem ser o de ter trabalhado com o Banco Central Europeu ou com o Banco de Portugal.
Que sim, mas... Falta-lhes experiência, dizem esses especialistas da ciência política que capricham na amnésia, uma vez que todos nos recordamos de lhes termos ouvido comentar: Que sim, mas... São sempre os mesmos. Referindo-se a ministros com vastas carreiras partidárias, que, por isso mesmo, não conseguiam levar por diante políticas para o povo. Ou seja: políticas libertas dos interesses partidários.
Portanto: se já percebemos que esses analistas são pau para toda a colher, resta--nos a esperança de que os novos ministros, catalogados de inexperientes, não o sejam.
Por mim, que não os conheço, aos ministros, é claro, espero que tenham sucesso, porque, entre a crise europeia e os nossos próprios problemas estruturais, vai ser precisa muita coragem.
E, como aqui escrevi há dias, o mais importante era mesmo juntar temas e políticas. E nesse aspecto o que Passos Coelho apresentou merece um bom benefício de dúvida: a pasta da Economia, que junta as Obras Públicas e o Emprego, e a da Agricultura com o Ordenamento do Território, o Mar e o Ambiente são os melhores exemplos.
A ideia de que pode haver gente nova capaz de dar um novo crédito à coisa pública é demasiado entusiasmante para ser morta à nascença pela velha e relha ideia de que a antiguidade é um posto. Por isso, não entendo que se possa negar um tempo de benefício a um equipa governativa que inclui quatro ministros sem filiação em qualquer dos partidos coligados e ostentam credenciais técnicas.
Afinal, esses analistas e comentadores pouco têm para dar aos seus concidadãos, além de um cinismo militante com o qual conseguem fazer-se passar por entendidos na matéria. Ou mesmo por entendidos em todas as matérias possíveis e imaginárias...
Até ao dia em que percebemos que eles não são nada entendidos naquilo em que nós próprios estamos um pouco informados.

quarta-feira, junho 15

Para além do tiro aos pombos

Manuel Tavares



Está mais que visto que vai haver uma hecatombe de ministeriáveis e ministeriados. Temos assistido a um autêntico concurso de tiro aos pombos entre os meios de comunicação que fazem da fulanização política a sua razão de viver. Os que, amanhã, tombarem em função das urgências políticas transformar-se-ão em especiais fontes de (des)informação por efeito daquilo que verdadeiramente nos torna pequeninos: a inveja.
Ora, do que Portugal necessita é de um governo que se comporte como equipa e possa assim ser particularmente eficaz por dois motivos óbvios: não temos dinheiro (e ontem a taxa a que nos podem emprestá-lo ultrapassou a da Grécia) e também não temos tempo.
Por isso, em vez de atirar nomes a ver se acertamos, todos faríamos um pouco melhor por nós próprios e pela Nação se déssemos um contributo decente para tentarmos definir o que poderá ser um governo eficaz para estes tempos de aflição e incerteza. É, de resto, nesta perspectiva que o JN publica nesta edição um conjunto de opiniões de personalidades e líderes de vários sectores importantes do nosso tecido económico.
Para além deste importante conjunto de opiniões, cabe ao país real, com o seu olhar distanciado das guerras palacianas que os tais media fulanizadores tentam interpretar, contribuir para o desenho do que seria um governo eficaz. O que para o país real não é seguramente tarefa hérculea: basta-lhe, ao país real, juntar o mais possível problemas e políticas que separadas por vários ministérios já vimos que não vão a parte alguma. Mesmo quando os tempos eram de vacas gordas.
Assim sendo, em tempos de vacas magras e urgências políticas talvez possamos esperar um só ministério da economia, obras públicas e emprego; um só ministério para as finanças, os fundos europeus, a administração pública e o financiamento da segurança social; um só ministério para a educação, o ensino e a formação profissional; um só ministério para a agricultura e o ordenamento do território; um só ministério para a saúde e a segurança social, etc, etc.
E sobretudo um ministério que, agrupando a administração interna e a justiça, fosse capaz de rapidamente e em força reordenar as forças policiais e de investigação criminal para que houvesse menos espalhafato mediático e mais justiça. Porque também nesta matéria o país real só pode olhar com um ar misericordioso para os linchamentos selectivos e cuja única resultante é a de tornar o nosso Portugal num local onde ninguém acredita em ninguém. O que num país com 10 milhões de almas se torna verdadeiramente irrespirável.

sexta-feira, junho 10

A política mais foleira


Manuel Tavares

Ana Gomes acha que Paulo Portas não tem condições para ser ministro e a pergunta que tal opinião sugere é esta: mas que tem o PS a ver com o próximo Governo que há-de ser coisa a tratar entre o PSD e o CDS ou estará Ana Gomes muito convenientemente a falar do alto da sua ciência política?
Pois, nem uma coisa nem outra: Ana Gomes pensa pura e simplesmente que Paulo Portas não deve ser ministro por lhe palpitar que o presidente do CDS não terá os comportamentos sociais mais recomendáveis.
José Sócrates foi vítima de idênticos abusos de opinião e passou boa parte da sua governação sujeito a essas imoralidades, de quem não se basta com a ética republicana. Ou seja: a lei.
Na política portuguesa, a confusão entre ética e moral - e ainda estética - tem gerado as maiores perversões, que alimentam muita da intriga palaciana de que vive Lisboa e já acabou com as carreiras políticas de muito boa gente.
Os termos em que Ana Gomes colocou esta sua espécie de objecção de consciência são intragáveis do ponto de vista das relações humanas e em particular da pedra filosofal da vida em liberdade: poder escolher em todas as opções da esfera pessoal desde que não limitemos a liberdade do outro.
Num país como o nosso, ataques a adversários partidários com base em apreciações comportamentais presumidas e que não relevam para a boa ou má administração dos bens públicos são ainda mais indecentes. Porque sendo nós tão poucos e tão vizinhos, dificilmente alguém escapará à interpelação de Jesus sobre a mulher adúltera que fariseus e escribas lhe trouxeram à presença para ser apedrejada.
Segundo reza esse capítulo 8.º do Evangelho de João, Jesus ergueu-se e lançou um desafio aos presentes: aquele que nunca pecou lance a primeira pedra. Um a um, todos abandonaram o monte das Oliveiras com o rabinho entre as pernas e então Jesus disse à mulher: uma vez que ninguém te condenou, não serei eu a fazê-lo.
É espantoso que alguém como Ana Gomes, que viveu a luta dos timorenses (muita dela baseada na fé dos Envangelho) esteja tão perdida nos labirintos mais foleiros da política.