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sexta-feira, junho 17

O Porto em Circuito Fechado

Nicolau do Vale Pais



O cargo de Presidente da Câmara Municipal do Porto é um cargo de absoluto privilégio no panorama político-mediático português
"A Democracia é difícil, mas dela não nos demitimos."
Francisco Sá Carneiro, 1934-1980. Portuense, advogado, fundador do PPD/PSD, primeiro-ministro (1980). 


O cargo de Presidente da Câmara Municipal do Porto é um cargo de absoluto privilégio no panorama político-mediático português: nenhum cargo oferece tanta visibilidade, pedindo em troca tão pouco escrutínio. Com a abstenção média acima dos 40% nos últimos três actos eleitorais, cerca de 65.000 votos garantem hoje uma maioria (ou muito próximo disso) a quem se candidate. Para este facto contribuem razões diversas, que vão desde a visão indiferente da Cidade e da Região cultivada na sede mediática nacional até, claro, aos doridos bicos de pés com que os representantes locais (poder e oposição incluídos) se põem à espreita de carreira; não são alheios, também, o problema económico regional - que é peça fulcral do problema económico nacional, agora brutalmente agravado pela conjuntura internacional - ou a demografia do concelho do Porto, em sangria desatada de habitantes há mais de uma década. Aguardaremos pelos resultados dos Censos de 2011 em Julho próximo, mas estas perdas do lado da receita - estima-se, no momento, que a Cidade tenha perdido mais de 50.000 habitantes nestes últimos 10 anos - carecem de discussão séria, pois não costumam entrar nos "soundbytes" das notícias sobre as finanças municipais. Esta quebra brutal não é uma mera realidade estatística, mas um problema seríssimo de sustentabilidade do papel do Porto na Área Metropolitana: é que, infelizmente para a Cidade, a perca de munícipes não desonera a gestão municipal de avultadíssimas despesas nas infra-estruturas metropolitanas, pois o cidadão não-residente não deixa de depender da Cidade e de a "usar" no seu quotidiano. O reflexo disso mesmo pode ser visto por qualquer um que conheça o traçado e o perfil do utilizador do Metro do Porto. O Turismo tem servido de capote a todo o tipo de excentricidades, desde os 6% de IVA para o Golfe de José Sócrates, até loucuras como o Circuito da Boavista, que este fim-de-semana tem o seu "debute"; não se pode levar a sério a estratégia de promoção do Porto (ou do Norte, ou do País) através do desporto automóvel, quando se andou a ignorar ostensivamente o centro histórico da cidade (e a marca "Património Mundial"), hoje pouco mais que um "resort" noctívago de toda a área metropolitana. Os supostos proventos da iniciativa têm sido panfletariamente anunciados como "de interesse público", mas é por demais evidente que eles estarão fortemente concentrados em áreas ou nichos restritos da actividade económica, como o o sector hoteleiro de luxo, dizendo muito pouco ao comércio tradicional, por exemplo. Isto equivale a dizer que poucos munícipes beneficiarão dessa eventual prosperidade e do investimento que fizeram enquanto contribuintes, por um lado, e enquanto munícipes massacrados, pelo outro, suportando a perturbação durante praticamente três meses da mais nobre zona turística da cidade, a sua linha de mar, a sua principal avenida e o seu parque urbano (que é um dos maiores da Europa) enjaulados (literalmente) entre grades. Se vier ao Porto, da Avenida da Boavista não se vê a vista de mar que lhe deu o nome, durante semanas a fio, com os cidadãos a queimarem tempo, dinheiro, combustível e coragem para suportar índices de ruído e de poluição indignos deste século. Infelizmente, é precisamente quando voltamos às múltiplas possibilidades distintivas de articulação estratégica com o país e a região (do Gerês ao Alto-Douro vinhateiro, da Galiza a Faro), que percebemos que porventura os incómodos causados e a gigantesca despesa - o Circuito custa quase o dobro do que as Juntas de Freguesia têm para se amanhar durante todo o ano - não são o lado mais obsoleto desta história: teimar "num estilo" é mau para a Democracia porque traz o risco de nos apartar do nosso sentido de representação, que deveria ser ulterior até ao nosso sentido de voto e fundatório do nosso sentido de legitimidade. Penso que era a essa dificuldade que Francisco Sá Carneiro aludia.

sábado, junho 11

Três desejos absolutamente líricos para o Dia de Camões

Nicolau do Vale Pais

Não percebo nada dos desígnios do acordo ortográfico, nada mesmo.

O fim do acordo ortográfico. 
Não percebo nada dos desígnios do acordo ortográfico, nada mesmo. Só consigo entendê-lo adivinhando-lhe uma óptica comercial, mercante - e a língua não é coisa que se comercie. Detecto um síndroma compulsivo de mudança permanente, uma espécie de fuga para a frente à falta de fomento de base, semelhante a quando começamos a arrastar os móveis para redecorar a sala, que afinal precisava era de obras. Não vejo de que maneira um conjunto aglutinador de alterações possa contribuir para a valorização da internacionalização da nossa cultura, sendo claro que sabemos que a inteligibilidade das variantes magníficas da língua portuguesa nunca esteve em questão. Nunca escreverei em tal "coisa": sou um "espectador" da língua, não um "espetador" de facas de gume rombo. Permitam-me a analogia: uma coisa é a evolução natural das espécies, outra coisa será o seu "upgrade" genético, mesmo que as alterações introduzidas sejam apenas a aceleração do naturalmente expectável. A Língua, para um compatriota de Camões, é o correr da História gravado nas palavras; convém que siga o seu curso natural, mantendo presente que a sua dimensão planetária é inversamente proporcional à escala do seu território nativo.

A defesa da qualidade da ficção.
Os "Morangos com Açúcar" celebram oito anos de longevidade e sucesso. Esta é uma proeza que, atendendo aos números de horas diárias de consumo de televisão pelas famílias portuguesas, tem tanto mérito quanto conseguir vender água num deserto. É mesmo um diabólico embaraço nacional a parada de "one-hit wonders" que por ali passa, numa exploração primitiva de uma juventude moldada à medida plástica dos "sponsors" do programa, principais beneficiários directos da mensagem propagandística do oco conteúdo; toda a gente teima em fazer de conta que estes não existem, para que se não levante o pano sobre o negócio da auto-proclamada "melhor ficção nacional". Na realidade, nem sequer se pode chamar "ficção" com toda a propriedade a esta pobreza de espírito, pois uma ficção seria, por definição, uma narrativa criada a partir da imaginação; ora, todos sabemos que aquele carnaval mais não é do que uma fantasia, uma fantasia de, e para o consumo como factor diferenciante entre os membros de uma comunidade. Experimente "googlar" a coisa, tope os "blogs" e afins; depois diga-me, ainda antes desse comentário em que se preparava para me rotular de elitista, o que espera realmente de uma geração cuja única imagem de si própria é aquela. A televisão não é feita por si, isso é mel para moscas; é feita pela falta de escolhas. Venha de lá um serviço público e uma política audiovisual decente, e toca a baralhar o mercado. Sociedade de consumo só vale a pena com liberdade de escolha.

A preservação do Património e o apoio à Criação.
Mais uns anitos e nem mesmo aqueles que só conseguem fazer a defesa da Cultura Portuguesa a partir do equívoco histórico-triunfal dos Descobrimentos, terão ainda edificado que lhes faça prova arquitectónica do discurso. Os monumentos portugueses estão em estado lastimoso, juntando-se, por exemplo, ao degradado edificado urbano, também ele humilhado pela treta da política para o Turismo, o completo desprezo pela coesão do território e a mais pérfida tolerância ao pato-bravo. Quantos são os locais no Mundo que adoraria visitar e onde nunca, jamais, gostaria viver? Venha de lá essa política virada para a conservação e, transversalmente, deixemo-nos de balelas: todos sabemos que, mesmo que os apoios às Artes vissem as suas verbas aumentadas em 1.000 vezes, o montante não daria para mandar comprar a bandeira para hastear na comemorações de inauguração dos novos submarinos. Aliás, só as "luvas" que jornais que ainda investigam (como o alemão "Der Spiegel") e estimam terem ficado pelo caminho neste "international" negócio davam para 50 anos de programação regular de um Teatro Nacional. Dia de Portugal é todos os dias, com especial incidência para aqueles em que, como no passado dia 5, nos arrogamos o direito à representação colectiva em troca da responsabilização individual. Não se trata de chauvinismos gratuitos, é mesmo uma questão de fundamentos para um novo modelo económico assente em três factores de competitividade universais: identidade, originalidade e qualificação. A nossa Lusa lucidez dependerá sempre da nossa criatividade e capacidade de reinvenção; essa é a nossa sina e o nosso orgulho. Resumir uma Democracia à capacidade de "castigo" do ex-governante é pequeno demais para nós. Ainda há muito Portugal para celebrar.