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sexta-feira, junho 17

Olha, não houve fugas!

Ferreira Fernandes

Uma das muito comentadas aparições de José Sócrates em conferências de imprensa foi um teste seu perante duas câmaras. Deveria ter sido experiência privada, mas foi transmitido em directo ele a falar para uma câmara, a falar para outra e interrogar um assessor sobre qual o melhor ângulo. Tivesse sido em início de Governo e tudo passaria com elogios sobre os cuidados que o governante punha na importante função de comunicar. Mas tendo sido em fim de ciclo, em período de morde canelas, desatou-se uma gozação. Ontem, os pais do futuro Governo apresentaram- -se em público para assinar o acordo e o encontro foi atabalhoado. À hora da assinatura comum, parecia que ainda havia coisas a limar no acordo PSD/CDS e tudo se atrasou, muito. Mas porque o ciclo é novo, não haverá, julgo, grande escarcéu. A menos, claro, que algum adepto do novo Governo se lembre de se maravilhar: "Brilhante! A bagunça de ontem mostrou que o passado do Sócrates do teleponto acabou de vez!..." Pouco dado a leituras simbólicas, por geralmente nada significarem, não vou por aí, nem por, nem contra. Já factos, comento: hoje, os ministros vão ser conhecidos e, até hoje, Passos Coelho e Paulo Portas não deixaram que houvesse fugas de informações. Não é (não deveria ser...) grande coisa, mas entre nós é raro e sério.

quinta-feira, junho 16

Togas da tanga

Ferreira Fernandes

O Centro de Estudos Judiciários (CEJ) fez um exame a 137 candidatos a juízes e procuradores do Ministério Público. Isto é, examinou gente que no futuro vai investigar para que se faça justiça e gente que vai fazer justiça. Os examinadores do CEJ consideraram que "a esmagadora maioria dos testes tinha muitas respostas parecidas ou mesmo iguais". Copianço generalizado, pois. Ou quase generalizado, já que talvez tenha havido quem não tenha aceitado a trafulhice. Perante a impossibilidade da destrinça - entre os aldrabões e os outros -, o CEJ decidiu-se pela justiça salomónica: pegou na espada e rachou ao meio os 20 valores máximos do exame: deu nota 10 a todos (como a média costuma ser 13 ou 14, o 10 serviu de sanção). E foi assim que de pequenino se não torceu o pepino destes futuros magistrados. Dificilmente se podia ter encontrado solução mais injusta: os trafulhas, que deviam ter tido 0 (e convidados a ir vender cautelas premiadas aos donos de fortunas ilícitas), tiveram 10; os alunos dignos, que deviam ter tido a sua verdadeira nota, tiveram a nota do arranjinho; e o CEJ, que não soube prever o problema, não foi obrigado a fazer novo exame. Ah, já me esquecia: o teste era sobre Investigação Criminal! Depois admirem-se que os filhos destes exames, não sabendo investigar, se safem fornecendo a jornalistas, rafeiros como eles, fugas ao segredo de Justiça. São fugas nota 10.

sexta-feira, junho 10

O meu Portugal de todos os dias

Ferreira Fernandes

Portugal há muitos. Tantos povos de passagem e desde sempre, e tanto gosto pelo mar, mal seria se fosse único. Vou falar do meu Portugal. Há dias, em reportagem, estive num canto de Portugal, marginalizado por ser canto escondido. Assisti lá a discussões destas: o sendinês (Sendim fica a 30 km de Miranda do Douro) é uma língua própria ou uma variante do mirandês? Confesso, não é a minha praia. Comovi-me foi com a tanoaria vizinha. Só as mãos e o saber eram transmontanos, a matéria-prima para as aduelas vinha de longe, carvalho francês, e o produto, as barricas (modernas, trabalhadas a laser), iam para mais longe, Napa Valley, Califórnia. Ser canto e juntar lugares longínquos derrete-me. Um dia, na ilha de Maui, Havai, velhinhas cantaram-me modinhas portuguesas e, no fim, perguntaram o que queria dizer "destino". Já tinham esquecido o português dos seus avós (açorianos, madeirenses e cabo-verdianos, embora todas elas ao cantar guardassem a pronúncia mais forte, a micaelense), elas eram americanas e eram do meu Portugal. É este saudosista? Pelo contrário, é virado para frente, como cabe a quem andou tanto. Por estes dias fala-se de uma derrota de Portugal por perder importância na OTAN. Para outros seria grave, não têm alternativa. Mas nós, porque não pensar na OTAS? Na Organização do Tratado do Atlântico Sul? Este mar tem São Tomé e Cabo Verde a norte, Angola a leste e o Brasil a oeste. Repararam no que os une?